"Sentaram-se, e, ali, permaneceram de mãos dadas, procurando ver na imagem o que a palavra não sabia revelar, enquanto a lua subia, lenta e impassivelmente, por entre a cordilheira" que tinha a presença dominante do Pico do Itabira. Visão de bastante impacto para nós, daqui da "rua" e de muito maior impacto, como se vê, para os Athaydes, descendentes do Coronel Borges, herói das guerras paraguaias, e dono das paragens onde se situa o majestoso pico, símbolo da cidade e dessa família, parte de Cachoeiro desde fins do século XIX.
As primeiras linhas, daí de cima, entre aspas, são de Hélio Athayde e do seu recente "A Imagem que não Morreu". Livro que, a pretexto - ótimo pretexto - de recolher impressões da infância, traz belíssimo painel de Cachoeiro, das duas últimas décadas do Século XIX aos primeiros trinta anos do século XX. E, com o painel, a reconstrução da história da família que nos deu um dos grandes Prefeitos de Cachoeiro de Itapemirim, Francisco Alves de Athayde (fins da década de 30), que veio moço de Rio Novo do Sul e se casou com a filha do Coronel Borges.
Pois Hélio Athayde, no livro que li quase sem largá-lo, em madrugada espremida entre dois dias de nosso carnaval baiano, traz a nós a nossa terra, nosso Cachoeiro tão cheio de histórias, tão cheio de futuro; nosso, de quem nos deu vida e de quem nós mesmos a damos ou daremos.
Se o pano de fundo do Itabira serviu para Hélio Athayde recuperar a história começada com o Coronel Borges, trazendo à baila os Athaydes e, com eles, em maior e merecida importância, seus pais; serviu-nos, também, o alento das palavras de sua mãe, então mais que centenária, ao rever pela última vez suas posses terrestres, imagem que não morre. Misto de tristeza e saudade, diz ele, mas de esperança fraterna no futuro, como ela disse: "O progresso é um carro sem travão, como já o dizia o poeta Guerra Junqueiro. Estou sentindo a dor de ter vivido demais! A velhice é a tristonha sombra da mocidade, descambando para a noite eterna, ou para nova vida, como querem outros. Ah! Meu Deus, quando virá me buscar?! Como este córrego, vou, também, morrendo, triste e lentamente, só que no meu caso é inapelável, mas, no dele, pessoas inteligentes e de espírito público podem interromper o desfecho final de seu ciclo."
O livro de Hélio Athayde a mim me trouxe recordações daquilo que não vivi; sentimentos que me doem, pois também são meus e esperanças que insisto em ter e que pulsam com o meu humano coração cachoeirense.
Data: 05/03/2000